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"Disseram-me: verás quando tiveres cinqüenta anos. Tenho cinqüenta anos: não vi nada". Erik Satie



























avant-dernières pensées
25.7.07

Sobre comunicação, esportes, inverno no Rio e hinduísmo

As pessoas sempre diziam: poxa, você mora do lado da praia, tem que caminhar, super bom, blá blá. Eu ia quase nunca e sempre detestava, monotonia pura aquele calçadão, convite a desistir. Aí eu descobri a caminhada na areia. Malhação que pode ser pesada, leve, agradável, com obstáculos, com subidas e descidas ou plana, simplesmente porque a praia nunca é a mesma, a areia muda de formato todos os dias. O amigo personal autorizou. Tem direito a chuva, a intimidade com a natureza, a mergulho pós malhação, a alongamento, a recitar mantras, a cantar, a posturas de ioga, a cabelo ao vento, a falar comigo mesma e o melhor: distância dos carros e do insensato mundo lá em cima. Descobri meu esporte radical e estou viciada. Quando não vou, sinto falta, quem diria?

Hj à tarde eu andava na areia, qdo me aparece um rapaz de preto, altão, lindão, atléticão, cara de gringo diferente, camisa pólo preta com bandeirinha do Brasil. O pan, pensei. Me pediu pra tirar uma foto dele, mar ao fundo. Não consegui. Perguntei: Do you speak english? Ele abanou a cabeça: no english. Vous parlez français?, insisti, me achando: no français. Rrrrruussia! Disse ele, sorridente e simpaticão! Hmmm, dissemos. Russo não vai rolar. Em mímicas ele me ensinou a pilotar o celular pra tirar foto. Despedimo-nos universalmente: sorrindo. Na volta, ele ainda estava lá e qdo passei por ele, perguntou: sport? Como quem quisesse saber que raio de esporte era aquele que eu praticava com tanto afinco. Sim, eu disse, em português, mesmo. Pena. Se falássemos uma língua em comum, tenho certeza de que ele iria comigo pro samba mais tarde... tinha razão o velho guerreiro: Quem não se comunica, se trumbica. E não, não era o Pan.

Delicioso ir à praia no inverno, assim, de manga comprida. Me sinto a própria Daphne Du Maurier na beira do cais em plena Cornuália, morrendo de frio, aquelas gaivotas, aquele cheiro de maresia, velhos-lobos-do mar, piratas, pescadores de suéter azul-marinho, brandy, barbas brancas e cachimbos, literatura, chá e inverno. Ah, tá bem, ela tava na Inglaterra e eu to no Brasil. Mas pô, eu também não sou a Daphne Du Maurier...

Ao abrir a porta de casa sinto o cheiro forte do incenso de massala que acendi quando sai e escuto o mantra que deixei tocando non stop. A pequena luz laranja aquece minha salinha já escura do começo da noite e eu sinto a energia transmutada, minha casa limpa. Sinto uma paz profunda e lembro de uma frase que li em algum lugar: no matter how odd it may seem, the universe is unfolding as it should.

Aum shring hring kleeng mahalakshmi namah aum


Lakshmi, a Vênus deles

8:25 PM Comments:

21.7.07

Alone together

Sentamos no Braca pra bater papo e ela já ficou com os olhos cheios d'água. Casada há uns 15 anos ou mais. Um filho de 12. Não suporta o marido há muitos anos, tem asco do toque dele, tem nojo dos beijos, sexo com ele é impossível, repugnante, se sente estuprada por ele a cada vez que tenta fazer sexo. A cia dele não deixa que ela se divirta. O papo dele é uma tortura pra ela. Ela o acha prolixo, redundante, um chato! A simples presença dele a deixa tolhida, artificial, infeliz.

Ele quer sexo toda hora, mesmo nessa situação óbvia de rejeição. Qto mais ela o rejeita, mais ele a quer, mais a persegue a todo momento, em todos os cantos da casa, mais ele se intromete nos programas dela, mais se impõe. Há anos estão nessa dinâmica neurótica. Ela diz: não tenho certeza de que quero me separar dele, queria ficar com ele e ter vida de solteira ao mesmo tempo, ter amantes... Engulo seco e proponho que ela tente encontrar sua individualidade nessa massa de neuroses e coletividades. Fico sem palavras ante o show de horrores que ela chama de casamento, de vida, de dia-a-dia.

Volto pra casa com o estômago embrulhado, pensando nos porquês de tanta gente - inclusive eu, em vidas passadas - aturar o impossível pra ficar comfortably numb.

Por que mudar é tão aterrorizante? Por que obedecer o desejo é mais perigoso do que aceitar viver na merda? O que você faria se não sentisse medo?


The frog prince, Jessie M. King

Por que escolher os sapos e esperar que eles virem príncipes em vez de preferir logo os príncipes?

(CD João Gilberto (1973, reissued 1978) Águas de Março, Undiú, Na Baixa do Sapateiro, Avarandado, Falsa Baiana; Eu Quero um Samba, Eu Vim da Bahia, Isabel (Bebel), É Preciso Perdoar, Izaura....)

3:18 AM Comments:

16.7.07

Estresse do excesso ou a volta dos mortos-vivos

Passo por uma banca de jornais e vejo um milhão de sorrisos descontraídos, de pares de peitos incríveis, de bundas perfeitas empinadas e penso: “se eu fosse homem eu tava brocha!” Tanta mulher gostosa de graça, em todos os ângulos, que sinceramente, sei que soa careta, mas acho que é por isso que os caras de 30 anos andam indo aos consultórios tratar de impotência. Tédio é o nome do negócio. Estímulo externo demais com pouco estofo interno dá nisso: tédio. Tédio brocha.

Eu sou cantora, há mais de vinte anos que subo em palco pra cantar. Vi platéias de todos os tipos, no Rio e fora do Rio e do Brasil. Vi platéia encantada, vi platéia blasé, vi gente adorando e achando um saco. Isso é normal, esse é o jogo.

Hoje fiz um show num local público, de graça. Nunca na vida eu vi um público com olhos tão vazios, com um desinteresse tão grave, com uma ausência tão absoluta. Vocês vão pensar, claro: “ah, o show devia estar horrível!”. Não estava. Essa não é a questão. Meia dúzia de gatos pingados estavam atentos, amando tudo, compraram o CD, pediram autógrafos. Normal. Mas a apatia da maioria me apavorou. A cara de desinteresse de quem passava e nem olhava, nem se coçava, como se nada estivesse acontecendo. Como se três pessoas não estivessem ali tocando lindos instrumentos e cantando lindas músicas. Como se aquilo não fosse nada.

E o que a mulher pelada tem a ver com os olhos vazios da platéia? Tudo a ver. Tédio é a palavra. A mídia, ops, com o perdão da má palavra, esqueceu de avisar que para desfrutar de um mundo de informações, imagens, sons, cores, cheiros e variedades é necessário usar os sentidos, é necessário ter vida interior, é necessário estar vivo. Hoje eu vi um bando de mortos-vivos. Eles podem até não ter gostado do show. Eu não gostei foi da platéia.


De fotografada a fotógrafa

(Lush Life (Blly Strayhorn) - Sarah Vaughan in The Duke Ellington Songbbok I)

8:12 PM Comments:

7.7.07

Todo artista tem que ir aonde a web está*

Eu sempre bati no peito pra dizer: “ah, no meu blog eu não me identifico”, achando que perderia a privacidade se o fizesse. Aí pensei que se a Marina W fala do livro dela, se o Mario Bortolotto fala das peças dele, se o Guga mostra os projetos e obras e quadros e esculturas dele, se o A. exibe os pratos que faz, ah, poxa, por que eu iria logo deixar de mostrar meu trabalho pra vcs, que vêm aqui sempre, que lêem essas mal traçadas linhas há anos...

Então tá, vou mostrar. Um, dó, lá, si, já!



Respeitável público, é com muito orgulho que apresento o meu recém-nascido disco O amor de uns tempos pra cá**, em duo com o violonista Marcus Nabuco. Só canções de amor de compositores contemporâneos. Gravadora SalaDeSom, distribuição nacional e virtual da BrazilMúsica! Os shows já podem ser comprados, os discos também. Damos entrevistas, fazemos shows em sua cidade, respondemos perguntas de fãs. Fazemos quase qualquer negócio. Quase.

Para saber de agendas e ouvir um pouco, vocês podem ir no www.andreadutra.com.br ou no www.myspace.com/andreanabuco. Se você for em andreadutra.com.br/newsletter, vc receberá a minha agenda e as novidades no conforto do seu lar, em seu próprio email.

*Esse negócio de boléia de caminhão já era.
**O disco é lindo de morrer. Pronto, falei!

7:11 AM Comments:

2.7.07

Livros que eu reli muito (em ordem alfabética e sem a menor intenção de listar top 10):

A arte cavalheiresca do arqueiro zen - Eugen Herrigel
A casa dos budas ditosos - João Ubaldo
Antologia Poética - Vinícius de Moraes
Alice no país das maravilhas - Lewis Carroll
Cem anos de solidão - Gabriel Garcia Marques
Histórias de cronópios e famas - Júlio Cortazar
O perfume - Patrick Susskind
Siddhartha - Herman Hesse
The thorn birds - Colleen Mac Collough
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - Clarice Lispector
Verão no aquário - Lygia Fagundes Telles (o campeão – reli mil vezes)
You touched me - D.H. Lawrence
Zen e a arte da manutenção de motocicletas - Robert Pirsig


Ex-libris

(Exit Music (for a film) (Radio Head) - Brad Mehldau in The art of the Trio vol 5)



5:03 AM Comments:



Trilha sonora

A partir de hj, sempre que eu estiver ouvindo música ao postar por aqui, eu vou dizer o que é, de quem é, quem executa e em que disco está. Se eu souber, claro. Vou escrever assim, sempre na ultima linha do post:

(Young and Foolish (Hague and Horwitt) - Brad Mehldau in The art of the trio vol 5)


Não faço mais que a minha obrigação, né?


4:56 AM Comments:

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